Chega Carmen, arquiteta e decoradora, acompanhada de seu assistente.
Antônia os recebe na porta, elegante.
- A Carla e Rogério Paes falam muito bem de você.
- Foi um prazer trabalhar com eles. São extremamente abertos
a ideias novas.
- Recebeu meu e-mail?
- Sim, já estudei o projeto, tirei algumas medidas, trouxe
até alguns desenhos e referências. Mas vou ser honesta, pra te dar um orçamento
mais preciso, só abrindo.
- Jura? Não dá pra me dar uma noção, nem por alto?
- Só quando abrirmos é que saberemos o que tem que ser
feito. Por isso já trouxe o Zé.
- Sastisfação.
- Bem, se é assim... Fiquem à vontade. Onde eu fico?
Carmen apontou uma cadeira, Antônia se sentou. Zé espalhou
algumas ferramentas na mesinha de centro e escolheu um serrote grande. Antônia não
disfarçou sua preocupação com o móvel assinado e o tapete persa. A decoradora a
tranqüilizou, o serviço seria rápido e limpo. Zé posicionou os dentes da serra
no alto da cabeça de Antônia.
- Tá bom aqui, doutora?
- Um centímetro para a direita. Aí.
Foi preciso apenas três movimentos de vai vem do serrote,
para abrir uma pequena fenda na cabeça da cliente, suficiente para enxergar o
espaço interno. Preocupada com sua hora na manicure, Antônia quis saber logo as
impressões da profissional.
- Muito bem, essa é a área dos traumas e inseguranças, que você
quer derrubar.
- Isso, pode pôr abaixo! Tô precisando aumentar o espaço da
auto-estima, está vendo? Não acha que vai ficar bom?
- Não tenho dúvida. Mas a reforma será um pouco maior do que
eu havia imaginado.
- É sempre assim, né? Você começa pensando que vai consertar
um negocinho, quando vê está trocando tudo!
- A estrutura está bem gasta.
Antônia soltou um riso nervoso.
- Você não está querendo dizer velha, não é?
Carmen estava acostumada aos melindres de suas clientes e,
pacientemente, tratou de explicar que em sua área o antigo, quando bem
conservado e cuidado, tinha mais valor que o novo. Antônia se acalmou.
- Acho fundamental fazer também uma reorganização do seu
espaço na memória. Está mal aproveitado. Informação demais.
- E eu que sempre me achei tão ignorante.
- Quantidade nem sempre é sinônimo de qualidade. Em design
de interiores, menos é mais.
Se você souber trabalhar o desapego, tem muita coisa aqui
que podemos jogar fora.
- Sou muito desapegada! Nossa, super desapegada! Só uma
lembrancinha ou outra, que têm valor sentimental, que eu não abro mão.
Carmen e Zé trocaram um olhar cúmplice, sabiam muito bem o
que aquilo queria dizer. Seria uma lenha conseguir tirar qualquer coisa dali.
Zé nunca entendeu por que cargas d’água as madames gostavam de encher a boca
pra dizer que eram desapegadas, se gostavam mesmo é de acumular tralha.
- Vejo muita herança de família... Umas de muito bom gosto,
outras nem tanto, se me permite a honestidade.
Antonia pensou em responder: "não, não permito!" Honestidade
demais pro gosto dela. Mas notou um clima estranho pairando no ar. E foi Zé
quem correu pra explicar.
- Dona, a gente tá vendo tudo que passa na sua cabeça.
Antônia ficou sem jeito, mas não perdeu a pose.
- Olha, querida, adoraria me livrar da maioria dessas
heranças de família, se você quer saber. Mas não posso, infelizmente.
- Entendo perfeitamente. Vou fazer o possível para
harmonizá-las com o que você tem de melhor e as novidades que vamos trazer.
- Doutora, tô achando que a circulação tá com pobrema. Tá vendo esse entupimento aqui?
- Ai meu Deus, entupimento? É muito sério?
- Não. Mas pode vir a ser. Vamos ter que trocar alguns tubos
e conexões, esses estão prejudicados. Você usa muito álcool, ansiolíticos,
antidepressivos, remédios pra dormir?
- Ah, uso que tenho direito. Quem aguenta ficar sem nada
hoje em dia?
- É verdade, a maioria dos meus clientes usa. Nesse caso,
recomendo que substitua os encanamentos com mais freqüência, para evitar os
riscos de entupimento e vazamento. E a área de serviço é importante pra você?
- Não, não trabalho desde que casei com o Cesar.
- Perfeito, então podemos aproveitar pra dar alguma outra
finalidade pra ela, o que acha?
Carmen sacou da bolsa algumas fotos de projetos de outros
clientes e mostrou a Antônia.
- Você pode construir um espaço climatizado para uma coleção
de vinganças, está vendo? Ou uma pequena academia, como essa, pra exercitar a
imaginação. Ou até um spa pra aliviar as tensões do dia a dia.
- Gostei de todas, mas tenho um sonho antigo pra essa área. Abrir
uma passagem para a área social e transformá-la numa aconchegante sala de
cinema. Para trazer as lembranças dos amigos mais queridos e rever os filmes
com os melhores momentos da minha vida.
- Ótima ideia.
- Os melhores são os antigos, da fase de ouro. Mas acho que
vão precisar de uma restauração.
- Pode deixar, tenho um senhor que só trabalha com isso. É o
melhor da cidade.
- Doutora, já que vai fazer a hidráulica, acho melhor fazer
a elétrica, também. Ó isso aqui!
- Hum, sinais de curtos. Isso não é bom.
- Ah, volta e meia eu tenho um. Mês passado mesmo tive um
enorme, levei o maior susto. Parecia que tudo ia explodir. Meu marido ficou até
com a impressão de te visto fumaça saindo pelas orelhas.
- Possivelmente há sobrecarga de energia em áreas
desnecessárias. Fique tranqüila, daremos um jeito nisso. Mais alguma coisa que
você gostaria de mudar?
- Sim. Esse grande vazio que tem aí à sua direita. Está
vendo?
- Claro, não tem como não notar. Mas, como você não o
mencionou, achei que gostasse dele assim, clean.
- É, já gostei mais. Mas de uns tempos pra cá ele está
parecendo maior para mim. Está me incomodando demais.
- Podemos preencher isso. Você gosta da linha oriental, mais
espiritual? Tá super na moda.
- Não é muito a minha. Acho bacana nos outros, mas acho que
eu enjoaria rápido.
- Leitura também cai muito bem. Fica chique, elegante. Só
tem um problema: exige uma manutenção mais cuidadosa, pra evitar a infestação
por minhocas ou grilos.
- Ah, então esquece. Nada que dê muito trabalho. Prefiro o
vazio do que ficar com a cabeça cheia de minhocas.
- Ok, eu penso em outra saída pra ocupar esse buraco
existencial. Pode fechar, Zé. Já vi o que precisava.
- E então, quando você acha que me passa o orçamento?
- Daqui a uma semana, eu imagino.
- E o tempo previsto, dá pra se ter uma ideia?
Carmen olhou para Zé.
- Ah, pode botar aí pra lá de dois ano! Isso trabalhando eu mais os três menino.
- Isso tudo, Carmen?!
- É uma reforma delicada, com grandes intervenções
estruturais. Se fosse fazer com análise, levaria no mínimo uns vinte anos.
- Deus me livre!
- Pensa que valerá a pena. Vai ficar com uma cabeça novinha
em folha.
- É tudo que eu estou precisando.